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Mulheres negras nos cursos de Engenharia: relato de estudante da Poli mostra como é a realidade


Mulher, negra, nascida no Capão Redondo, bairro da periferia na zona sul de São Paulo. Desde a 5ª série do ensino fundamental ela já tinha uma convicção: ser engenheira. Larissa Mendes, que aos 19 anos iniciou os estudos em Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é uma exceção quando se analisa o perfil dos estudantes da Poli. Segundo a pesquisa Datafolha, 82% dos estudantes são homens e 59% pertencem à classe A.

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Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

Quando se analisa a situação das mulheres na Engenharia, e principalmente das mulheres negras, o número é ainda menor. O levantamento do Poligen, o Grupo de Estudos de Gênero da Escola Politécnica, mostra que em 121 anos apenas sete mulheres se formaram na Poli.

O estímulo desde a infância à Engenharia

O aspecto cultural na sociedade é um dos principais motivos que levam à ideia de que as ciências exatas são voltadas predominantemente aos homens. Os brinquedos que estimulam o raciocínio, como os blocos de montar ou as peças temáticas de ciências são voltados aos meninos, enquanto que os brinquedos às meninas são relacionados aos afazeres domésticos e à criação dos filhos, com as bonecas ou pequenos utensílios de cozinha.

Mesmo com algumas mudanças nesse sentido, há ainda pouco estímulo na sociedade e, inclusive, dentro das famílias às carreiras de Engenharia ou tecnologia às mulheres, com a justificativa errônea de que os homens têm mais propensão às Exatas, enquanto as mulheres têm às Ciências Humanas ou às Artes.

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Imagem: Medium

Em busca de pluralidade no quadro de funcionários, o próprio mercado de trabalho já começa a apresentar ações para incentivar o aumento das mulheres em cargos de tecnologia e engenharia, no Brasil e em empresas globais de tecnologia. Mas ainda falta muito para a igualdade de gênero nestas áreas, e a situação é ainda mais crítica quando analisamos o cenário para as mulheres negras.

A importância da discussão sobre a discriminação racial

Kabengele Munanga, antropólogo e professor da USP, é o organizador do material “Superando o Racismo na Escola”, editado pelo Ministério da Educação em 1999 e que, entre os temas abordados, destaca que as mulheres, juntamente com os negros, são as maiores vítimas do preconceito. Dentro da sala de aula, a discriminação é dirigida às alunas, e de modo mais grave ainda às alunas negras, o que torna importante a discussão sobre gênero, opressão, desigualdade e preconceito em diferentes âmbitos, e desde cedo.

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Imagem: Carta Capital.

Ao longo dos anos, Munanga vem trazendo ao debate, entre outros temas, o racismo e a importância da educação e da mídia como fundamentais para o combate ao preconceito no país. O professor defende que o preconceito se mantém reafirmado pela educação. “A socialização começa na família. É assim que, enquanto ideologia, o racismo se mantém e reproduz. A educação colabora para a perpetuação do racismo”, disse em entrevista ao Viomundo.

Já publicamos aqui no Blog da Engenharia a biografia e o exemplo de Enedina Alves, a primeira mulher negra a se formar engenheira pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1945. Ela trabalhou como engenheira fiscal de obras e foi chefe da Divisão de Engenharia da Seção de Estatística do Estado. Seu exemplo perdura, apesar de não haver o reconhecimento devido à sua trajetória, principalmente perante os desafios enfrentados há décadas.

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Imagem: Prosa Livre

E para a conscientização da sociedade no combate à discriminação racial e de gênero, é preciso, em primeiro lugar, que conheçamos a história de vida e os desafios, além das injustiças cometidas a cada pessoa, mas por elas mesmas.

A luta contra o preconceito e desigualdades, em todos os sentidos, pertence a cada um de nós. Mas como forma de respeito, a representação e a voz que denuncia cada fato devem ser, nestes casos, trazidos pelas mulheres negras, como a seguir, em que o depoimento de Larissa Mendes, concedido à Folha de S. Paulo, é transcrito na íntegra. Para que nos sirva de exemplo, abra os olhos da sociedade para ações e mudanças efetivas:

 

Larissa Mendes, em depoimento a Luisa Leite, da Editoria de Treinamento da Folha de São Paulo:

Sempre gostei de exatas e decidi fazer engenharia na 5ª série [do ensino fundamental]. É comum ver menos mulheres que homens com afinidade para matemática, e as pessoas acabam achando que é algo natural. Não é. É uma construção social.

Desde pequenos, os meninos têm a criatividade e o raciocínio lógicos estimulados, brincam com carros, com blocos de construção.

Já os brinquedos femininos são ligados ao instinto materno e familiar: brincamos de boneca, de cozinhar.

No primeiro vestibular, recém-formada, acertei 45 questões -para passar em engenharia, tem que acertar 60. Na época, eu queria mesmo era passar no ITA. Só que minha prova nem chegou a ser corrigida, porque não atingi a pontuação mínima.

No começo eu ainda pensava: vou fazer um ano de cursinho, vou estudar muito e vai dar tudo certo. Fiz a prova do cursinho e consegui bolsa de quase 100%.

Quando começaram as aulas, foi um choque muito grande. O primeiro foi o social. As pessoas viviam em uma realidade muito diferente da minha. A maioria da turma dos cursos de exatas era homem. De 200 alunos, só eu e um outro éramos negros.

Naquele período, não conseguia me relacionar. Uma vez uma menina olhou para mim e perguntou: “Você não tem medo que um bicho entre no seu cabelo?”. Outra vez ouvi um menino dizer: “Toda vez que vejo esses pretos com dread [dreadlocks], tenho vontade de atropelar”.

Se eu reclamasse, diziam que era mimimi, que eu estava fazendo drama. Eu me sentia sozinha e completamente isolada. Por causa do primeiro ano de cursinho, comecei a fazer terapia.

O segundo choque foi em relação ao ensino. Fui perceber o quanto a escola pública era insuficiente para a Fuvest só depois de entrar no cursinho. Eu estava muito atrás dos outros alunos.

Algumas matérias eu nunca tinha visto nem ouvido falar na minha vida. Pensei muito em desistir. A certa altura do primeiro ano de cursinho, percebi que o ITA não era uma opção para mim. Mesmo para quem vem de escola particular, a prova não é fácil. Para gente que veio de escola pública, então, é um negócio de outro mundo.

Hoje vejo que a USP sempre foi a melhor alternativa. Se já foi difícil lidar com as pessoas do cursinho, imagina como seria estudar numa faculdade elitista do Exército?

Mesmo com um ano de cursinho, não consegui entrar na engenharia. Me matriculei de novo, mas pagava o dobro, porque não tinha mais o desconto. Ainda assim era uma fração muito pequena da mensalidade real de lá, que, sem bolsa, é de mais de R$ 2.000. Eu pagava R$ 400.

Foi só na terceira tentativa que passei -e muito bem. Precisava acertar 60, consegui 75. Com o bônus da escola pública, minha nota passou de 80, mas eu teria entrado mesmo sem ele.

IGUAIS

As duas primeiras semanas na USP foram muito boas. É muito sensacional. Meus pais estavam muito felizes. Você acha tudo maravilhoso, aí começam a vir as matérias.

O curso é de certa forma limitante. Ele não te ensina a raciocinar, a pensar, ele te ensina a fazer uma prova, uma questão específica de uma matéria. Vai se dar bem quem teve acesso a um bom ensino médio. Nos colégios tradicionais de São Paulo, é ensinado pré-cálculo no ensino médio, coisa que nunca estudei na vida.

A gente acha que a Fuvest iguala, que, a partir do momento em que você passa na prova, todas as pessoas que estão aqui são iguais. Não é isso que acontece.

Sinto muita dificuldade. Tive uma crise de ansiedade e não consegui fazer uma prova de mecânica. Estava estudando ao longo do semestre inteiro, mas não conseguia entender a matéria. Fiquei mal, chorei muito. Como a gente é meio estimulado a competir, às vezes fico com vergonha de pedir ajuda.

Acordo umas 5h40 para chegar às 7h30. Tenho aula em período integral. A volta demora e, quando chego em casa, não tenho disposição para estudar tanto. As pessoas falam como se fosse natural você virar várias noites, tomar não sei quantos copos de café, estudando.

Penso em desistir quase todo dia. O tempo todo há muitas barreiras jogadas na nossa cara, dizendo “você não vai conseguir se formar”.

Às vezes, no ônibus circular de manhã, as pessoas passam me empurrando para descer no ponto da Politécnica. Por quê? Porque não acham que vou descer na Poli. Porque as únicas pessoas negras aqui dentro são os funcionários terceirizados da faxina.

No meu ano, somos eu e mais dois meninos negros. Na engenharia inteira, conheço outros dois. Não tem nem como você discutir a questão racial aqui dentro. Simplesmente não há negros.

Os professores pedem entrevistas com engenheiros, visitas técnicas a obras, de um dia para o outro. Só consegue fazer quem tem um engenheiro próximo. Quando questionei isso, uma colega de sala perguntou: “Mas você não tem nenhum engenheiro na sua família?”

As pessoas não têm muita noção do que acontece fora dessa bolha social da faculdade. Por isso que, mesmo com todos esses problemas, fico feliz em ter estudado na rede pública. Não fui ensinada a fazer uma prova, mas a ser uma cidadã consciente e a entender a realidade do próximo. Na minha escola tinha gente de diferentes classes sociais.

A sociedade é muito limitante. Desde pequeno, é como se nos ensinassem a pensar de um único jeito: ciência exata não é para mim. Faculdade não é para mim. A USP não é para mim. É como se as pessoas não fossem estimuladas a sonhar.

Por isso a representatividade é tão importante. Ver uma mulher negra que chegou até lá faz a diferença na vida de outras pessoas.”


Referências: Folha de S. Paulo, Época, Economia SC, Fisenge, Viomundo, Superando o Racismo na Escola (em Geledés)


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  • Gabriel Silva

    Situação complicada a dessa garota.
    Mas fé em Deus, força pra tolerar esses ignorantes e manter boas notas, que ela consegue.

    Gabriel – Universidade Federal de Sergipe

  • Leandro Frutuoso

    COROLHO ESSA MINA É FODA, estudei em escola pública tbm e faço eng mecânica na USP São Carlos, cé loco os cara aqui tudo com carrinho, coléginho bandeirantes, etapa, objetivo, os caras vivem mesmo numa bolha… Ainda mais que tem gente do Brasil inteiro lá os maluco não acredita que eu pegava uma hora e pouco de busão e metrô quando ainda estudava em São Paulo. Nem conheço essa mina, mas já sou fã.

  • solange alves

    Ela me retratou completamente, “penso todos os dias em desistir” e ” não tem negros pra discutir questão racial”. Gente a sensação que tenho é que a engenharia não ficou pra negro(a) e pobre estou agora no 5º periodo, mais ja era pra estar me formando, porem as dificuldades são tantas pra quem saiu de uma vida inteira de escola publica que so quem estudou la que sabe, ainda mais por ser integral, e pra quem precisa trabalhar pra se manter la rsrsrsr, ja era, mais o que mais me maltrata é a competitividade, estão jogando no mercado pessoas desprovidas de de sentimentos, que so veem numeros (posições), pessoas que fazem absolutamente tudo pra estarem melhor que os outros.