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Análise metalúrgica da causa do acidente de Ayrton Senna – Parte 1

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Em primeiro lugar, vamos entender como tudo começou:

As mãos de Ayrton Senna estavam esbarrando na parte de fibra de carbono do cockpit (cabine de pilotagem), então para proporcionar ao piloto maior conforto e controle do carro havia 2 alternativas:

1) Fazer outro cockpit

2) Aumentar a coluna de direção

A alternativa escolhida foi a de número 2. Para isso soldaram uma “luva” na coluna de direção. A modificação foi realizada 15 dias antes do GP de San Marino.

Relatos constam que após a modificação, Senna havia comentado de vibrações estranhas no carro dias antes do acidente, todavia na tentativa de corrigir o problema ajustaram o sistema de suspensão e o jogo dos pneus.

A Figura 1 mostra a “luva” e detalhes do projeto.

Figura1: Coluna de direção da Williams de Ayrton Senna modificada. Fonte: Revista Veja, 3 de maio de 1995

Análise de causa do acidente

No dia 1 de maio de 1994 aconteceu o acidente, cujo fator decisivo foi a fratura da coluna de direção na região da “luva”. Esta foi a conclusão da Suprema Corte Italiana.

A investigação do acidente aconteceu em 4 perspectivas, conforme mostrado na figura 2.

Figura 2: Análise de causas do acidente de Ayrton Senna

A análise metalúrgica foi a mais determinante para fechar o parecer da investigação. A fractografia foi realizada no microscópio eletrônico de varredura (MEV) da Faculdade de Engenharia da Universidade de Bolonha, Itália e constatou o processo de fadiga, estando 60% da região com estrias.

Uma segunda análise para confirmação foi feita no laboratório do Centro Militar da Aeronáutica, em Pornezia, Itália e identificou 70% de estrias.

Após o parecer técnico da investigação, Patrick Head, ex-diretor técnico da Williams, reconheceu que a coluna foi mal projetada e a solda mal executada.

Análise metalúrgica

Material da coluna de direção: aço usado na indústria aeronáutica.

A trinca que antecedeu a fratura por fadiga poderia ter sido detectada por Ensaios Não Destrutivos, como ultrassom ou partículas magnéticas, porém não era usual realizar esses ensaios na coluna de direção, apenas no sistema de suspensão.

Na época da investigação os advogados da Williams defenderam que a causa da fratura da “luva” da coluna de direção teria sido o impacto no muro, porém se assim fosse, as características da superfície de fratura seriam outras.

Há 3 tipos de fratura: dúctil, frágil e por fadiga. Cada uma delas apresenta determinado aspecto de superfície.

A fratura por fadiga é caracterizada pela presença de marcas de praia e/ou estrias. A fractografia da região da falha, representada pela figura 3, mostra a presença de estrias, logo a presença dessas morfologias de superfície confirma que a causa da fratura foi a fadiga.

Figura 3: Estrias de fadiga. Fractografia da coluna de direção. Fonte: Revista Veja, 3 de maio de 1995

Fratura por fadiga

A fratura por fadiga é de natureza frágil e, portanto, é traiçoeira, pois acontece sem aviso prévio. É a principal causa de falha em materiais metálicos, correspondendo a cerca de 90% de todas as falhas em metais.

Se a coluna de direção não fraturou antes da colisão com o muro, conforme defendido pelos advogados da Williams, o impacto foi o suficiente para romper a superfície que já estava em estágio avançado de degradação da matriz e que se romperia a qualquer momento.

O estágio avançado de fadiga (60-70%) detectado pelas análises no MEV, justifica as vibrações percebidas por Senna dias antes da corrida.

Nesses relatos de Senna, provavelmente a degradação da superfície metálica pelo processo de fadiga já havia se iniciado e até o início da prova se tornou insustentável, a ponto de o acidente acontecer ainda na 7ª volta.

Sendo assim, o argumento usado pelos advogados da Williams realmente pôde ser invalidado pela análise metalúrgica.

Portanto, confira mais no próximo artigo parte 2.

Lílian Barros da Silveira
Engenheira e mestre em Engenharia Metalúrgica pela Universidade Federal Fluminense. Possui treinamento na área de ensaios não destrutivos e inspeção de equipamentos. Foi consultora na Empresa Júnior Pulso Consultoria. Estagiou no setor de siderurgia e é atuante no mercado financeiro. Administradora do Instagram @Engenharia_Integral. É de Volta Redonda/ RJ. Adora ler, tem a meditação como um hábito e a corrida como prática esportiva.

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