Conhecimento Técnico que Transforma
Conhecimento Técnico que Transforma
Categorias

Physical AI: A Inteligência Artificial Que Obedece as Leis da Física

Tem uma diferença fundamental entre a AI que escreve textos e a AI que projeta produtos.

A primeira pode inventar. A segunda não pode.

Porque produto precisa funcionar no mundo real. E o mundo real tem leis. Gravidade, fricção, inércia, resistência de materiais. Ignore qualquer uma delas e seu projeto falha.

É por isso que o conceito de Physical AI apresentado por Jensen Huang no 3DEXPERIENCE World 2026 é tão relevante para engenheiros.

O Problema dos Modelos de Linguagem

Jensen explicou a diferença de forma simples:

“No modelo de linguagem, você precisa entender sintaxe, vocabulário, estrutura. E tem ‘gosto’ – qual é a melhor forma de compor um parágrafo. Tem guardrails – coisas que não devemos falar.”

Mas no mundo físico é diferente:

“No modelo mundial, ao invés de gosto e valores, tem que obedecer as leis da física. Tem que entender causalidade.”

A AI que projeta seu produto precisa saber que:

  • Se você derrubar um dominó, os outros vão cair
  • O que vem depois depende do que veio antes
  • Materiais têm limites de resistência
  • Gravidade puxa pra baixo (sempre)
  • Contato entre superfícies gera atrito

Parece óbvio? Pra nós, sim. Pra uma AI, precisa ser ensinado.

A Analogia do Cachorro

Jensen usou uma analogia que ficou na minha cabeça:

“É como um cachorro pegando uma bola no ar. Ele não está fazendo simulações físicas de balística ou calculando a natureza elástica da bola. Ele está literalmente nos observando e prevendo onde vai cair. E pega a bola no ar.”

Esse é o princípio da Physical AI:

  • Não calcula cada variável em tempo real
  • Aprendeu como o mundo físico funciona
  • Prevê resultados com base em experiência
  • Age com velocidade impossível para simulação tradicional

Physics Informed Machine Learning

O conceito técnico por trás disso se chama Physics Informed Machine Learning – aprendizado de máquina informado por física.

Jensen apresentou a tecnologia NVIDIA Nemo Physics:

“É essencialmente um framework de ciência artificial que nos permite criar modelos que são treinados por simuladores de primeiros princípios ou trabalham junto com eles.”

Na prática:

  1. Simuladores tradicionais resolvem as equações da física (precisos, mas lentos)
  2. AI observa milhares de simulações
  3. AI aprende os padrões
  4. AI prevê resultados novos (rápido, mas baseado em física real)

O ganho? 10.000 vezes mais rápido que simulação tradicional.

Simulação + Emulação = Revolução

Jensen fez uma distinção importante:

“A ideia de simulação e emulação se juntar vai ser realmente revolucionária.”

SimulaçãoEmulação
Resolve equaçõesPrevê resultados
Baseada em primeiros princípiosBaseada em aprendizado
Precisa, mas lentaRápida, mas aproximada
Bom para validaçãoBom para exploração

O futuro não é escolher um ou outro. É usar os dois juntos:

  • Emulação para explorar milhares de alternativas rapidamente
  • Simulação para validar as melhores opções com precisão

Case Rivian: Comportamento de Colisão em Tempo Real

O exemplo apresentado foi a Rivian, fabricante de veículos elétricos.

Eles usam Physical AI para:

  • Simular comportamento de colisão durante o design (não depois)
  • Otimizar aerodinâmica em tempo real
  • Validar performance enquanto modelam

“Os engenheiros não apenas desenham o formato. Eles desenham o comportamento e certificam isso.”

O designer vê o impacto de cada mudança imediatamente. Não precisa esperar uma simulação rodar durante a noite. O feedback é instantâneo.

Case NIAR: Certificação de Aviões com AI

Outro exemplo impressionante: o NIAR (National Institute for Aviation Research).

Certificar um avião é um pesadelo burocrático:

  • 3 a 5 anos de processo
  • Mais de 10.000 requerimentos para cumprir
  • Milhões de páginas de documentação

Com Physical AI:

“As recomendações poderiam ser automatizadas rapidamente, sem ter que ler milhões de páginas. E a conformidade é constantemente verificada.”

O resultado é uma mudança de paradigma:

  • Antes: Compliance como processo no final
  • Depois: Compliance by design (integrado desde o início)

Você não projeta e depois verifica se está em conformidade. Você projeta já em conformidade porque a AI está validando continuamente.

Design for Manufacturability Integrado

Jensen tocou num ponto que todo engenheiro de produto conhece bem:

“Hoje, design for manufacturability é integrado no processo de design. Ao invés de você vir com o design e outro time decidir se é fabricável.”

A Physical AI permite que, enquanto você modela:

  • O sistema verifica se a peça é fabricável
  • Alerta sobre geometrias problemáticas
  • Sugere alternativas viáveis
  • Considera restrições de fornecedores aprovados

Quando você termina o design, ele está pronto para ir. Não precisa de ida e volta com a manufatura.

Modelos Mundiais: A Base de Tudo

O conceito mais profundo apresentado foi o de World Models (Modelos Mundiais).

Jensen explicou:

“O modelo mundial está enraizado em biologia, física, ciências de materiais.”

Um modelo mundial não é só uma AI que sabe física. É uma AI que tem uma representação interna de como o mundo funciona.

Isso permite:

  • Transferência de conhecimento entre domínios
  • Generalização para situações novas
  • Raciocínio causal (não só correlação)
  • Predição de comportamentos complexos

Case Danone: Ciência de Alimentos

Um exemplo surpreendente: a Danone usando Physical AI para desenvolver alimentos.

“Eles querem produzir alimentos mais saudáveis, consumir menos água, e transformar proteínas animais em proteínas vegetais.”

Como funciona:

  • AI aprende a “linguagem da biologia” (DNA, proteínas, células)
  • Gera automaticamente formulações de novos produtos
  • Valida propriedades nutricionais virtualmente
  • Certifica decisões antes de testes físicos

A mesma lógica que vale para peças mecânicas vale para moléculas. As leis são diferentes, mas o princípio é o mesmo: a AI precisa obedecer a realidade.

O Que Isso Significa Para Simulação

Se você trabalha com simulação estrutural, CFD, térmica ou qualquer outra disciplina, prepare-se para mudanças:

Curto prazo:

  • Pré-processamento mais rápido com AI
  • Sugestões de malha otimizada
  • Identificação automática de regiões críticas

Médio prazo:

  • Emuladores treinados nos seus próprios dados
  • Exploração de design space em minutos, não dias
  • Feedback em tempo real durante modelagem

Longo prazo:

  • Simulação como serviço contínuo (não evento discreto)
  • Validação automática de conformidade
  • Digital twins que evoluem com o produto físico

Minha Análise

Por 9 anos cobrindo esse evento, vi a simulação evoluir de ferramenta especializada para commodity. Qualquer engenheiro hoje roda uma análise básica.

O que vi hoje é a próxima evolução: simulação como camada invisível do processo de design.

Você não vai “parar para simular”. A simulação vai estar acontecendo o tempo todo, em background, informando cada decisão. Physical AI é o que torna isso possível.

E isso muda completamente o perfil do engenheiro de simulação. Menos “operador de software”, mais “arquiteto de modelos”. Menos executar análises, mais definir o que precisa ser validado e interpretar resultados.

A física não muda. Mas a forma como interagimos com ela está mudando radicalmente.


📍 Acompanhe nossa cobertura completa: 3dxw26.blogdaengenharia.com

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Companheiros Virtuais: Por Que Cada Engenheiro Terá um Time de IAs

Next Post

AURA e LEO: Os Companheiros Virtuais Que Vão Transformar Seu SOLIDWORKS

Read next