Eu estava no auditório quando Jensen Huang disse que todo engenheiro terá “um time de IAs trabalhando para ele”. A plateia aplaudiu. Eu fiquei em silêncio, pensando.
Porque por trás daquela frase otimista existe uma pergunta que ninguém fez em voz alta: se qualquer pessoa pode ter um exército de agentes de IA projetando por ela, o que sobra para o engenheiro?
O Que Eu Vi em Houston
Nos últimos dias, assisti à maior demonstração de força tecnológica que já vi em um evento de engenharia.
Jensen Huang e Pascal Daloz anunciaram a fusão das plataformas NVIDIA e Dassault Systèmes. Simulações que levavam horas agora rodam em tempo real. Assistentes de IA como AURA e LEO entendem linguagem natural e executam comandos no SOLIDWORKS. O Model Mania — desafio clássico do evento — foi resolvido por comando de voz.
Não foi conceito. Foi software funcionando ao vivo.
E aí vem a pergunta incômoda: quando a IA faz o trabalho técnico, o que define um engenheiro?
A Democratização Tem Dois Lados
Vamos ser honestos: a democratização das ferramentas de engenharia é, em princípio, algo bom.
Mais pessoas tendo acesso a software de ponta significa mais inovação, mais soluções, mais empreendedores transformando ideias em produtos. O garoto na Lituânia que construiu robôs com SOLIDWORKS e ganhou medalha no FIRST Global Challenge é prova disso.
Mas existe uma diferença entre democratizar o acesso e comoditizar a profissão.
Quando qualquer pessoa com uma assinatura de software pode pedir para uma IA “projete uma peça que aguente 500 kgf de carga” e receber um resultado validado em segundos, o que acontece com o engenheiro que passou 5 anos na faculdade aprendendo a fazer esse cálculo manualmente?
O Paralelo Com Outras Profissões
Isso já aconteceu antes.
Fotógrafos viram o iPhone transformar qualquer pessoa em “fotógrafo”. Designers gráficos viram o Canva fazer em minutos o que antes levava horas no Photoshop. Tradutores viram o Google Translate (e agora o ChatGPT) entregar resultados que antes exigiam anos de estudo.
Essas profissões não morreram. Mas mudaram radicalmente.
Os fotógrafos que sobreviveram não são os que sabem apertar o botão — são os que têm visão artística, relacionamento com clientes, capacidade de direção. Os designers que prosperam não são os que dominam ferramentas — são os que entendem estratégia de marca, psicologia do consumidor, storytelling visual.
A ferramenta virou commodity. O diferencial migrou para cima.
O Engenheiro de 2030
Se a tendência se confirmar, o engenheiro de 2030 não será valorizado por saber modelar uma peça ou rodar uma simulação. A IA fará isso melhor e mais rápido.
O engenheiro de 2030 será valorizado por:
Fazer as perguntas certas. A IA resolve problemas. Mas alguém precisa definir qual problema resolver. Entender o contexto do negócio, as restrições reais, os trade-offs que não aparecem na especificação técnica.
Julgar os resultados. A IA vai gerar 10 opções de design. Alguém precisa olhar para aquelas 10 opções e dizer: “essa aqui faz sentido no mundo real, essas outras não”. Isso exige experiência, intuição e conhecimento que não se aprende em prompt.
Integrar sistemas complexos. Uma peça sozinha é fácil. Um produto com milhares de componentes, fornecedores em três continentes, regulamentações de cinco países e um prazo impossível — isso ainda precisa de gente que entende o todo.
Assumir responsabilidade. Quando o produto falha, quando o recall acontece, quando alguém se machuca — quem assina embaixo? A IA não assina. O engenheiro assina.
O Risco Real
Meu medo não é que a engenharia vire commodity.
Meu medo é que os engenheiros aceitem virar commodity.
Que a profissão se acomode no papel de “operador de IA” — gente que sabe usar a ferramenta mas não entende o que está fazendo. Que as faculdades continuem ensinando o mesmo currículo de 20 anos atrás enquanto o mercado muda na velocidade da luz. Que os profissionais parem de estudar porque “a IA resolve”.
Se isso acontecer, aí sim a engenharia vira commodity. Não por causa da tecnologia, mas por causa da mentalidade.
O Que Eu Escolho Acreditar
Saí do auditório em Houston com uma certeza: a engenharia não vai virar commodity para quem não deixar.
As ferramentas vão ficar mais poderosas. O acesso vai se democratizar. O trabalho repetitivo vai ser automatizado. Tudo isso é inevitável.
Mas a capacidade de pensar sistemicamente, de resolver problemas inéditos, de liderar projetos complexos, de assumir responsabilidade por decisões técnicas — isso não se automatiza.
Jensen Huang disse que engenheiros terão um time de IAs. Concordo. Mas times precisam de líderes.
A pergunta não é se a engenharia vai virar commodity.
A pergunta é: você vai ser o líder ou vai ser substituído pelo time?
Este artigo representa a opinião pessoal do autor, baseada em observações durante o 3DEXPERIENCE World 2026 em Houston, Texas.
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