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De PLM Para IPLM: A Aposta Da Dassault Systèmes Na Propriedade Intelectual Como Novo Motor De Receita

O CEO da Dassault Systèmes detalhou a estratégia por trás dos Universos 3D, explicou o novo modelo de precificação baseado em IA e revelou as ambições da empresa para a Índia

Logo após a General Session de abertura do 3DEXPERIENCE World 2026, o CEO da Dassault Systèmes, Pascal Daloz, concedeu uma coletiva de imprensa exclusiva para jornalistas de diversos países. Durante aproximadamente 40 minutos, Daloz aprofundou os conceitos apresentados no palco principal e revelou detalhes estratégicos que não foram mencionados na apresentação geral.

O Blog da Engenharia esteve presente e traz os principais pontos dessa conversa.

A IA não remove as restrições da física

Daloz abriu a coletiva reforçando uma mensagem central: a comunidade de engenheiros presente no evento é “a maior comunidade da internet em todo o mundo” — e isso importa porque são pessoas que “enfrentam a realidade da física, a realidade dos materiais, a realidade da energia, a realidade das restrições”.

“Isso não muda com a IA. A IA só pode acelerar certas coisas. A IA não remove a restrição da física. Nós somos os removedores”, afirmou.

Economia Generativa: a nova definição

O CEO detalhou o conceito de “economia generativa” que vem desenvolvendo nos últimos anos. Segundo ele, no século passado, as indústrias eram dedicadas a produzir objetos. Agora, as grandes empresas produzem conhecimento e know-how.

“Visitei a fábrica de um cliente e fiquei impressionado por não conseguir ver uma única pessoa. As pessoas na frente definiram, projetaram sistemas robóticos. É esse conhecimento e know-how que estão produzindo as coisas.”

Daloz explicou que os produtos estão se tornando “definidos por software” — não apenas veículos, mas sistemas de produção e até moléculas. E mais importante: “O virtual não está mais representando o real. O virtual está impulsionando e gerando o real.”

Propriedade Intelectual é a nova moeda

Um dos pontos mais enfáticos de Daloz foi sobre propriedade intelectual. Ele afirmou que o conhecimento e o know-how estão se tornando “a nova moeda” da economia.

“Se você a tem, pode usar todos os algoritmos para produzir coisas automaticamente. Da mesma forma que se você tem dinheiro, pode comprar tudo o que quiser.”

E fez uma redefinição importante: PLM, que tradicionalmente significa “Product Lifecycle Management” (Gestão do Ciclo de Vida do Produto), agora deve ser entendido como IPLM — Intellectual Property Lifecycle Management (Gestão do Ciclo de Vida da Propriedade Intelectual).

“Quando você usa um sistema de IA e extrai conhecimento do conjunto de dados, quem é o proprietário da PI? São as pessoas que têm os dados? São as pessoas que fornecem os algoritmos? É a pessoa que está construindo o modelo? É um tópico complexo”, explicou.

A solução da Dassault é rastrear todas as contribuições de propriedade intelectual dentro do sistema, garantindo que não haja “vazamento” de PI entre empresas diferentes.

Modelo Mundial da Indústria: além da física

Daloz explicou a diferença entre os “world models” que o mercado está desenvolvendo e o que a Dassault chama de “Industry World Model” (Modelo Mundial da Indústria).

“O modelo mundial atual é uma inteligência artificial física. Entende a física. Isso é ótimo quando você dirige um carro autônomo — o carro precisa entender o ambiente. Mas não é isso que fazemos.”

A diferença, segundo ele, é que a Dassault combina física com causalidade e raciocínio. “No modelo mundial, você tem o conhecimento, a ciência, mas não tem o know-how. No modelo mundial da indústria, estamos construindo as conexões entre o know-how e o conhecimento.”

Novo modelo de precificação: o fim da contagem de assentos

Uma das revelações mais importantes da coletiva foi sobre o futuro modelo de negócios. Daloz admitiu que a forma de precificar software está mudando fundamentalmente.

“Por quase 40 anos, vendemos licenças contando assentos, porque por trás dos assentos há alguém usando o software. Agora você tem companheiros virtuais. Não é um usuário real. Então, precisamos continuar contando assentos ou precisamos contar outra coisa?”

A resposta da Dassault envolve três novas “unidades”:

1. Unidade de Conhecimento — As certificações e disciplinas que o companheiro domina (Leo pode ser engenheiro mecânico, químico ou especialista em fabricação)

2. Unidade de Know-how — A experiência específica da indústria (Leo trabalhando para a indústria automobilística tem know-how diferente de Leo trabalhando para aeroespacial)

3. Unidade de Trabalho — O tempo de trabalho efetivo (o companheiro pode trabalhar “enquanto você e eu estamos dormindo”)

“A combinação dessas três unidades está se tornando a nova moeda. É isso que contaremos no futuro”, afirmou Daloz.

Gêmeo Virtual como Serviço

Daloz expandiu o conceito de gêmeo virtual para além de produtos físicos. Segundo ele, a Dassault pode criar gêmeos virtuais de organizações, redes de valor e até modelos de negócio.

“Vocês sabem que somos um sistema para o gêmeo virtual do carro, do avião, das moléculas. Mas vocês sabiam que podemos ser o gêmeo virtual de uma organização? De uma rede de valor? De um modelo de negócios?”

O gêmeo virtual, explicou, “não está mais apenas relacionado aos objetos, porque é uma forma de representar as coisas, sejam elas físicas ou humanas. E uma organização é uma coisa humana.”

A origem do nome AURA

Em uma anedota curiosa, Daloz revelou como o nome da companheira virtual AURA foi escolhido: “Pedimos aos nossos agentes, nossos companheiros, para encontrar um nome. E o nome vem do próprio agente. Significa ‘Ajudando Você a Realizar suas Ambições’.”

Soberania na nuvem

Questionado sobre a iniciativa GAIA-X e a nuvem soberana europeia, Daloz explicou sua visão sobre soberania tecnológica.

“Para mim, soberania é ter a escolha. Não significa estar isolado do resto do mundo.”

Ele contou que há 15 anos tomou a decisão de construir a própria infraestrutura de nuvem da Dassault, em paralelo à AWS, justamente para ter essa opção. “Agora isso está se tornando extremamente relevante porque certas indústrias, como defesa na Europa, não estão dispostas a colocar dados em algo que não seja controlado por uma empresa europeia.”

Sobre a propriedade intelectual especificamente, foi enfático: “A PI é um tópico soberano. Se você quer ser cuidadoso, deve evitar colocar sua própria PI na mesma caixa.”

Índia: meta de 1 bilhão em receita

Respondendo a um jornalista indiano, Daloz revelou as ambições da empresa para o país. A Dassault inaugurou recentemente seu maior escritório global em Pune, com cerca de 8.000 funcionários.

“Provavelmente não há um único produto da Dassault sem ter uma linha de código vinda da Índia”, disse.

Mas além de centro de desenvolvimento, a Índia está se tornando um mercado importante. Daloz mencionou contratos com a Mahindra e crescimento nas áreas aeroespacial e ciências da vida.

A meta declarada: 1 bilhão de receita na Índia até 2030-2035.

O que vem amanhã

Daloz encerrou a coletiva com um convite para a sessão do dia seguinte, prometendo mais detalhes sobre o Modelo Mundial da Indústria e a infraestrutura de computação necessária para rodar os companheiros virtuais.

“Vocês entenderão mais profundamente o que está por trás disso. E descobrirão que é uma realidade, não apenas um conceito. Vocês verão casos reais de clientes.”

E fez questão de rebater uma percepção que considera equivocada: “Às vezes nos consideram um pouco fora de moda, o que definitivamente não é verdade. O que estamos trazendo com os companheiros virtuais, com a experiência generativa, está realmente mudando profundamente a indústria.”

Esta é uma cobertura exclusiva do Blog da Engenharia, que está em Houston acompanhando o 3DEXPERIENCE World 2026 pelo 9º ano consecutivo.

Acompanhe a cobertura completa em 3dxw26.blogdaengenharia.com

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