CEO da SOLIDWORKS usa analogias históricas do fogo e motor a vapor para explicar por que a IA não substituirá o trabalho de engenharia, mas o amplificará
Houston, Texas — Cobertura exclusiva do Blog da Engenharia
“A IA vai roubar meu emprego de engenheiro?”
Essa é a pergunta que assombra milhões de profissionais de engenharia ao redor do mundo. Na abertura do 3DEXPERIENCE World 2026, Manish Kumar, CEO da SOLIDWORKS, decidiu enfrentar o elefante na sala de frente — e sua resposta merece a atenção de todo engenheiro.
A honestidade que faltava no discurso corporativo
Kumar começou de forma surpreendentemente direta: “Tenho sido frequentemente perguntado: a IA vai tirar empregos de engenharia? E para ser franco, há uma preocupação real.”
Diferente dos discursos corporativos genéricos que tentam dourar a pílula, o CEO reconheceu a realidade: “A IA pode assumir trabalhos significativos. Especialmente trabalho repetitivo que segue padrões. Isso significa que algumas tarefas diminuirão. Alguns papéis mudarão.”
Mas é o que veio depois que importa para quem trabalha com engenharia.
“Vocês são o valor, a IA é apenas um multiplicador”
A frase central do discurso de Kumar resume a posição da Dassault Systèmes para a comunidade de engenharia: a inteligência artificial é uma ferramenta de amplificação, não de substituição.
“A IA é apenas um multiplicador. Vocês são o valor”, declarou. “A próxima onda de inovação habilitada por IA tornará seu julgamento, seu ofício e sua capacidade de trabalhar no mundo físico ainda mais importantes.”
E completou com uma metáfora poderosa: “A IA é apenas um motor. Vocês são os condutores.”
A lição do fogo e do motor a vapor para a engenharia moderna
Para fundamentar seu argumento, Kumar recorreu à história das grandes inovações tecnológicas — todas impulsionadas pela engenharia. E a analogia é brilhante.
“Considerem o fogo”, disse ele. “Nossos ancestrais não o dominaram para lançar uma civilização. Eles o dominaram para aquecimento e proteção. Mas uma vez que esses problemas foram resolvidos, o fogo se tornou uma fonte de inovação.”
O fogo permitiu que humanos se protegessem de animais, formassem as primeiras comunidades e, eventualmente, fundissem minério — movendo a humanidade da Idade da Pedra para a Idade do Metal. Engenharia metalúrgica nasceu ali.
“A primeira pessoa segurando uma tocha não poderia ter imaginado os fornos industriais que um dia construiriam nosso mundo”, observou Kumar.
O mesmo padrão se repetiu com o motor a vapor: inventado para bombear água de minas de carvão inundadas, acabou gerando locomotivas, navios, fábricas e cidades inteiras. Tudo engenharia.
Engenharia está na “fase de faísca” da IA
Segundo Kumar, a inteligência artificial está exatamente nesse estágio inicial de desenvolvimento — e a engenharia será fundamental para determinar seu futuro.
“Hoje, nós a usamos para tarefas importantes — resumir, gerar imagens, copiar código”, explicou. “Mas a IA não é apenas uma ferramenta, a IA é uma fonte de inovação. E como as outras inovações, ela levará a descobertas que não podemos imaginar.”
A mensagem para os engenheiros na plateia foi clara: vocês serão os responsáveis por decidir o que essa nova “fonte de fogo” irá alimentar.
“Os arquitetos de IA nos deram o fogo, mas vocês decidirão o que ele alimenta”, afirmou.
O argumento do cachorro robô: a IA precisa da engenharia
Talvez o momento mais convincente da apresentação tenha sido quando Kumar explicou por que a engenharia se tornará mais importante — não menos — com o avanço da IA.
“Muitas pessoas pensam que a IA é um ótimo cérebro digital, mas para nós, cérebro significa corpo”, argumentou.
E deu um exemplo concreto que todo engenheiro entende: “Recentemente observei um cachorro mecânico aprendendo a andar. A parte da IA era simples — um loop ensinando o cachorro a avançar um passo de cada vez. Mas o cachorro ainda precisa de um corpo que possa sobreviver no mundo real.”
O corpo precisa de articulações que se movam corretamente, estruturas que suportem carga, sistemas térmicos que não superaqueçam, mecanismos que não falhem ao escorregar ou colidir com obstáculos. Isso é engenharia pura.
“A IA pode aprender o padrão, mas não pode desafiar a física”, concluiu Kumar. “É aí que vocês entram.”
A engenharia como espinha dorsal da IA
Kumar foi além e argumentou que toda a infraestrutura da inteligência artificial depende de engenharia física.
Os chips que alimentam a IA? São fabricados com sistemas mecânicos de precisão extrema — manuseio de wafers, isolamento de vibração, controle de fluxo de ar. Engenharia mecânica de altíssima precisão.
Os data centers que processam esses chips? Exigem máquinas que cavem, perfurem, levantem e instalem. Sistemas de refrigeração industrial. Backup de energia. Engenharia civil, mecânica, elétrica.
A conectividade entre esses locais? Veículos utilitários especializados. Equipamentos industriais robustos. Mais engenharia.
“Cada passo da jornada da IA é pavimentado com hidráulica, materiais de gerenciamento térmico, decisões de design que precisam funcionar no mundo real”, disse Kumar. “A engenharia é a espinha dorsal industrial da IA.”
O reforço de Pascal Daloz
O CEO da Dassault Systèmes, Pascal Daloz, reforçou a mensagem quando assumiu o palco.
“A IA é realmente para você. Não para te substituir, mas para amplificar o que você faz. Para te tornar ainda mais poderoso”, declarou.
E acrescentou um ponto crucial sobre propriedade intelectual: “Lembre-se, a arte é a propriedade intelectual mais valiosa neste novo mundo. E na economia generativa, a IP está se tornando a nova moeda.”
Em outras palavras: o conhecimento especializado dos engenheiros — a capacidade de resolver problemas físicos reais — está se tornando mais valioso, não menos.
O que isso significa na prática para engenheiros?
Se Kumar e Daloz estiverem certos, os próximos anos trarão uma reconfiguração do trabalho de engenharia:
O que a IA assumirá:
- Tarefas repetitivas e padronizadas
- Geração inicial de geometrias
- Extração de dados de desenhos
- Simulações preliminares
O que os engenheiros farão mais:
- Decisões de design complexas
- Validação de resultados de IA
- Integração de sistemas físicos
- Problemas que exigem julgamento técnico
- Inovações que a IA não pode imaginar
A prova está na demonstração
O discurso de Kumar não ficou só nas palavras. Durante a apresentação, ele demonstrou ao vivo como o companheiro virtual Leo transformou um desenho 2D em um modelo 3D paramétrico completo, incluindo análise de elementos finitos — em questão de segundos.
A IA fez o trabalho repetitivo. Mas quem decidiu se o resultado estava correto? Quem validou a análise estrutural? Quem fará as modificações necessárias para o mundo real?
O engenheiro.
📍 O Blog da Engenharia acompanha o 3DEXPERIENCE World pelo 9º ano consecutivo, com equipe em Houston, Texas.
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